terça-feira, 19 de junho de 2007

Do Portugal Profundo

Ontem, numa daquelas comuns conversas de circunstância, discuti com, não o que chamaria uma amiga, mas uma conhecida, o estado de Portugal. Dois apartes já para começar: a necessidade de especificar que se trata apenas de uma conhecida, primeiro; o estado de Portugal, depois.
Se especifico o estatuto da minha interlocutora é para deixar claro que qualquer que seja a minha relação com as pessoas com quem falo em nenhuma circunstância me abstenho de dizer o que penso. Não guardo as minhas posições polémicas para as partilhar apenas com os amigos enclausurada entre quatro paredes e não deixo a opinião de vão de escada para os meramente conhecidos. Quanto ao facto de o tópico ser o estado de Portugal, lamento a falta de originalidade.
Nunca em outro momento da minha vida me senti tão desiludida com o meu país. Muitos dirão que já aqui se viveu muito pior. Admito que sim. Mas nasci em 1973. Não tenho por isso qualquer experiência pessoal com o Portugal da ditadura e só em finais dos anos 80 terei começado a ter uma visão crítica sobre o que me rodeava. Com a entrada na então chamada CEE acreditei que apanharíamos o comboio do progresso. Ainda que tivessemos de viajar algum tempo na última carruagem poucas vezes duvidei que chegaríamos à primeira classe. Não preciso fazer o resumo do que daí para a frente aconteceu. Ou melhor, do que não aconteceu. Não aconteceu o Portugal que eu pensava ser possível. Pelo contrário, aconteceu chegar a 2006 e este revelar-se o ano com a maior perda do poder de compra nos últimos 21 anos.
Mas isto são apenas números e estes, já se sabe, serão sempre fáceis de contornar, quanto mais não seja acusando quem os apresenta de não saber fazer as contas.
O meu desabafo de hoje vem na sequência de alguns acontecimentos na cena nacional que me inquietam e que passa por este clima “pidesco” que estamos a viver. Poderão pensar que chamar-lhe “pidesco” é exagero mas não sei se teremos tido, nos anos recentes, outro momento tão crítico no que à liberdade de expressão diz respeito. Aquilo que temos visto faz o episódio do contraditório de Rui Silva parecer brincadeira de miúdos.
Mas não é da censura...perdão, auto-regulação, dos meios de comunicação social que falo. Esse fenómeno não é novo nem exclusivo nosso. Veja-se o caso recente com o Presidente da República em França, Nicolas Sarkozy. As famosas imagens do presidente francês após o encontro com Vladimir Putin apresentando-se, digamos, atordoado, nunca passaram nas televisões francesas a pedido do Eliseu. Porém, temos hoje ao nosso dispor um meio, a internet, por enquanto livre, que faz com que seja mais rigoroso o escrutínio, neste caso, dos políticos. E graças ao YouTube não só viram os franceses como vimos todos nós. Pelo menos até ao dia de hoje já viram 3.218.783 de internautas...
O motivo da minha indignação, que se veio juntar à inquietação já suscitda pelo caso Charrua, é a notícia de que António Balbino Caldeira, autor do blog “Do Portugal Profundo”, foi convocado para prestar declarações, como arguido, no caso “Dossier Sócrates”. Para os menos bem informados lembro que Caldeira, professor do Instituto Politécnico de Santarém, foi o primeiro a suscitar no seu blog dúvidas sobre o percurso académico e utilização do título de engenheiro por parte do primeiro ministro. A convocação foi feita primeiro por telefone e, depois, por fax, algo que parece suscitar algumas dúvidas quanto à sua legalidade. Acrescente-se a instauração de processos disciplinares após denúncia por sms e temos a optimização dos recursos tecnológicos por parte dos funcionários do estado.
É importante não esquecer que “Do Portugal Profundo” é a criação de um homem de coragem. Não só por ter trazido para a esfera pública uma questão que, ao contrário de muitos, acho relevante, mas sobretudo porque nunca se escudou atrás do anonimato. A via mais fácil teria sido a criação de um outro blog, anónimo, para tratar este caso. Não foi o que aconteceu e Caldeira só peca por ingenuidade, primeiro por acreditar que vivia num país livre e, depois, por pensar que a colocação de um disclaimer o colocaria ao abrigo de consequências judiciais.
Muitos dirão que tudo não passa de manobras de intimidação. Mas que um governo democraticamente eleito recorra a manobras de intimidação é aquilo a que eu chamo uma “chavização” da sociedade. Verdade lhes seja feita: eles avisaram, na pessoa de Jorge Coelho, que “quem se mete com o PS, leva”. Estúpidos somos nós que não os levámos a sério.
E, já agora, eu estarei metida em sarilhos por causa DESTE post???????????,



P.S. Só há pouco descobri que o António Balbino Caldeira é ISCSPiano, como eu (ainda na Junqueira). Como se fossem precisos mais motivos para me solidarizar com ele...

4 comentários:

Docas disse...

Olá amiga!Estou boquiaberta com esta história!! Reconheço como tu que este país parece nunca sair da última carruagem, mas talvez por feitio ou "pancada" acredito que sempre é possível dar a volta e entrar nos carris... Mas estas censuras que proliferam, lembram-me outras figuras bem próximas.. (..) que devido ao enorme poder que detêm, maiorias absolutas e afins, nunca se satisfazem e querem dominar tudo e todos, e não há limite. Há muitas histórias iguais a esta pelo mundo fora... mais longe ou debaixo do nosso nariz.. Mas não haverá mesmo solução? continuo a querer acreditar! Tudo de bom! Beijos

António Balbino Caldeira disse...

Muito grato pela solidariedade - ainda para mais, iscspiana!

Deu jeito, termos uma formação mais sustentada para conseguir discernir o mostro mais cedo. Um abraço!

E parabésn pelo blogue, que vou linkar na próxima actualização Do Portugal Profundo.

nitpicker disse...

Pois é, Rick, que bizarro está a ficar este nosso país. Agora se calhar percebo porque é que o outro senhor ganhou aquele concursozinho na RTP. Provavelmente quem nele votou queria transmitir a mensagem que mais vale um original do que estas cópias baratas dissimulados de democratas. Mas este comportamento chavista é um verdadeiro tiro no pé. Beijinho.


António, espero que não leve a mal que o trate assim, muito obrigada pela visita ao meu singelo estaminé. Não tem de agradecer a solidariedade. É sincera e estou segura que não duvidará que toda a blogosfera (e não só) está consigo. Mais uma vez muito obrigada por não se deixar amordaçar. Apareça sempre.

Laurentina disse...

AH VALENTE!!!
GRANDE MULHER...


Beijão grande