Ontem, numa daquelas comuns conversas de circunstância, discuti com, não o que chamaria uma amiga, mas uma conhecida, o estado de Portugal. Dois apartes já para começar: a necessidade de especificar que se trata apenas de uma conhecida, primeiro; o estado de Portugal, depois.
Se especifico o estatuto da minha interlocutora é para deixar claro que qualquer que seja a minha relação com as pessoas com quem falo em nenhuma circunstância me abstenho de dizer o que penso. Não guardo as minhas posições polémicas para as partilhar apenas com os amigos enclausurada entre quatro paredes e não deixo a opinião de vão de escada para os meramente conhecidos. Quanto ao facto de o tópico ser o estado de Portugal, lamento a falta de originalidade.
Nunca em outro momento da minha vida me senti tão desiludida com o meu país. Muitos dirão que já aqui se viveu muito pior. Admito que sim. Mas nasci em 1973. Não tenho por isso qualquer experiência pessoal com o Portugal da ditadura e só em finais dos anos 80 terei começado a ter uma visão crítica sobre o que me rodeava. Com a entrada na então chamada CEE acreditei que apanharíamos o comboio do progresso. Ainda que tivessemos de viajar algum tempo na última carruagem poucas vezes duvidei que chegaríamos à primeira classe. Não preciso fazer o resumo do que daí para a frente aconteceu. Ou melhor, do que não aconteceu. Não aconteceu o Portugal que eu pensava ser possível. Pelo contrário, aconteceu chegar a 2006 e este revelar-se o ano com a maior perda do poder de compra nos últimos 21 anos.
Mas isto são apenas números e estes, já se sabe, serão sempre fáceis de contornar, quanto mais não seja acusando quem os apresenta de não saber fazer as contas.
O meu desabafo de hoje vem na sequência de alguns acontecimentos na cena nacional que me inquietam e que passa por este clima “pidesco” que estamos a viver. Poderão pensar que chamar-lhe “pidesco” é exagero mas não sei se teremos tido, nos anos recentes, outro momento tão crítico no que à liberdade de expressão diz respeito. Aquilo que temos visto faz o episódio do contraditório de Rui Silva parecer brincadeira de miúdos.
Mas não é da censura...perdão,
auto-regulação, dos meios de comunicação social que falo. Esse fenómeno não é novo nem exclusivo nosso. Veja-se o caso recente com o Presidente da República em França, Nicolas Sarkozy. As famosas
imagens do presidente francês após o encontro com Vladimir Putin apresentando-se, digamos, atordoado, nunca passaram nas televisões francesas a pedido do Eliseu. Porém, temos hoje ao nosso dispor um meio, a internet, por enquanto livre, que faz com que seja mais rigoroso o escrutínio, neste caso, dos políticos. E graças ao YouTube não só viram os franceses como vimos todos nós. Pelo menos até ao dia de hoje já viram 3.218.783 de internautas...
O motivo da minha indignação, que se veio juntar à inquietação já suscitda pelo caso Charrua, é a notícia de que António Balbino Caldeira, autor do blog “
Do Portugal Profundo”, foi convocado para prestar declarações, como arguido, no caso “
Dossier Sócrates”. Para os menos bem informados lembro que Caldeira, professor do Instituto Politécnico de Santarém, foi o primeiro a suscitar no seu blog dúvidas sobre o percurso académico e utilização do título de engenheiro por parte do primeiro ministro. A convocação foi feita primeiro por telefone e, depois, por fax, algo que parece suscitar algumas dúvidas quanto à sua legalidade. Acrescente-se a instauração de processos disciplinares após
denúncia por sms e temos a optimização dos recursos tecnológicos por parte dos funcionários do estado.
É importante não esquecer que “Do Portugal Profundo” é a criação de um homem de coragem. Não só por ter trazido para a esfera pública uma questão que, ao contrário de muitos, acho relevante, mas sobretudo porque nunca se escudou atrás do anonimato. A via mais fácil teria sido a criação de um outro blog, anónimo, para tratar este caso. Não foi o que aconteceu e Caldeira só peca por ingenuidade, primeiro por acreditar que vivia num país livre e, depois, por pensar que a colocação de um
disclaimer o colocaria ao abrigo de consequências judiciais.
Muitos dirão que tudo não passa de manobras de intimidação. Mas que um governo democraticamente eleito recorra a manobras de intimidação é aquilo a que eu chamo uma “chavização” da sociedade. Verdade lhes seja feita: eles avisaram, na pessoa de Jorge Coelho, que “
quem se mete com o PS, leva”. Estúpidos somos nós que não os levámos a sério.
E, já agora, eu estarei metida em sarilhos por causa
DESTE post???????????,
P.S. Só há pouco descobri que o António Balbino Caldeira é ISCSPiano, como eu (ainda na Junqueira). Como se fossem precisos mais motivos para me solidarizar com ele...